sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

testemunho

minha mente pensa,
acusa,
ensaia futuros,
revira arquivos
como quem procura febre
num corpo que já esfria.

ela passa.
eu fico.

no intervalo.
entre um pensamento e outro.
onde o ar entra quente
e sai mais lento
do que entra.

ali
onde o peito não se explica.

há algo que sangra.
não porque é ferida,
mas porque é vivo.

culpa, amor, medo,
misturam-se.
tudo antigo.
tudo fundador.

aprendo
não a arrancar,
mas a tocar
o tecido mais duro
que agora sustenta.

as cicatrizes se formam
sem desaparecer.
fecham
enquanto eu vejo.

o novo não chega,
brota.

há um corpo presente.
respirante
não como falta.
como calor que permanece
quando a noite termina.

eu (me) observo
enquanto o tempo trabalha em mim.
não seguro.
não corro.

testemunho.

e o que fica
fica porque quer.

como o ar.
como o pulso.
como o amor
quando deixa de julgar
e aprende a permanecer.